12/05/2012

A Curva dos Teus Olhos


A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito 
É uma dança de roda e de doçura. 
Berço nocturno e auréola do tempo, 
Se já não sei tudo o que vivi 
É que os teus olhos não me viram sempre.
  
Folhas do dia e musgos do orvalho, 
Hastes de brisas, sorrisos de perfume, 
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro, 
Barcos de céu e barcos do mar, 
Caçadores dos sons e nascentes das cores. 

Perfume esparso de um manancial de auroras 
Abandonado sobre a palha dos astros, 
Como o dia depende da inocência 
O mundo inteiro depende dos teus olhos 
E todo o meu sangue corre no teu olhar. 


Paul Éluard, Algumas das Palavras


08/05/2012

(...)

 Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros são as tentativas mais puras do Universo.
«Olha-os, e não os mates»

 Maria Gabriela Llansol, O raio sobre o lápis



29/04/2012

   As três marés diurnas do corpo humano constituem o segredo da sua civilização, o seu tesouro-mor. 
   «Nisso, dizem eles, somos os únicos a ter vencido a animalidade». Daí resultam realmente magia, redução e quase anulação do sono, vidência, condensação e forças psíquicas, ao ponto de já não estarem à mercê de fadigas, feridas e outros acidentes que apanham os homens desprevenidos.
   Como estas marés são o seu segredo, delas pouco irei falar.
   A primeira maré de longe é a mais importante, a mais complexa, como que pré-formada pela noite. Depois vem a terceira, que é a mais alta. Da décima apenas sei aquilo que a todo momento se diz e é isto: «Trazei quando ela leva; levai quando ela traz». 
   Contrariamente ao que eu julgava, a noite é mais múltipla do que o dia e está sob o signo dos ribeiros subterrâneos.


Henri Michaux, No país da magia
Numa grande estrada não é raro vermos uma onda, uma onda solitária, onda fora do oceano.
Não tem utilidade nenhuma, não constitui nenhum jogo.
É um caso de espontaneidade mágica.


Henri Michaux, No país da magia

14/04/2012

Somos gente pura: os mais novos não sabem o que é a promiscuidade, a minha rapariga se vir a palavra escrita deve achá-la muito comprida e custosa de soletrar: pro-mis-cu-i-da-de (pelo método João de Deus, em tipos normandos e cinzentos às risquinhas, até faz mal à vista!). A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, me penetra e tranquiliza, me lembra - e por que não ?! - coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas,umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. Máquinas que nós somos, máquinas quase perfeitas a bem dizer maravilhosas, inda que frágeis, como não admirar as nossas peças, molas e válvulas e veias, todas elas animadas por um sopro que lhes parece alheio mas sai do seu próprio movimento, do arfar, dos uivos do animal, do desespero do anjo caído. E a par disso que é o trivial, que é o que cada um, tosco ou aleijado, tem para dar e trocar, fatalidades, na sua mísera ou portentosa condição de bicho, a beleza, que é a surpresa, a harmonia das formas, que é a excepção, a inteligência, que é a reminiscência dos deuses. Ao lado do bicho, natural e informe, a estátua - onde a carne se afeiçoou em linhas puras, sabe-se lá porquê, por quem e para que fim (sim, o fim sabemos e é o que irmana todos na caveira desdentada horrível a rir-se muito da beleza e dos olhos que a gozavam, da estátua viva e das mãos que a percorriam demoradamente, enlevadas).
 


Luiz Pacheco, Comunidade

03/04/2012

Quando a confusão das coisas mundanas,
Que esquece a contemplação da beleza, cessa
E a Fantasia, das asas feridas tombando,
À guerra do mundo a sua paz entrega.

Uma mágoa de exílio tolhe o coração
E a frágil vontade, para a luta impotente
Desalenta, já derrotada antes da acção,
com ideias insanas a lucidez da mente;

O barco da acção já naufraga no porto,
O guerreiro mata-se com armas brincando,
E o peito vazio não tem outro desporto
Que a contemplação rendida do encanto

Que, como o clarão breve de uma fogueira,
Escarnece o brilho do sol [... ...]


Fernando Pessoa

20/03/2012

16/03/2012

Haiku Erótico

mamilos ilhas
do mar elástico
  flores
na pele do peito

*

negro loiro
o perfume volume
  clitoris
da face do êxtase

*

vento oscilando
cúpula no mastro
  glande
rubra de neve

*

na pele do deserto
areia movediça
  cetim
de dedos cactus

*

fundo e claro
o obscuro fluxo
  canto
do olho aberto

*

figura esguia
peixe na água
  lava
por fenda fina

*

a saliva sabe
do sol o toque
  beijo
eixo na boca

*

vôo no ritmo
das asas duplas
  cópula
única é a ave

*

volume ocupando
o espaço da mão
  flecha
redonda logo

*

olhos abertos
na cor da noite
  voláteis
cristais de luz

*

na onda anda
um outro lugar
  vulva
volume vago

*

o ambíguo dizer
pedra de toque
  pénis
no calor dos olhos

*

carícia outra
leve fluir
  língua
o toque ácido

*

total orgasmo
nulo de nada
  luz
sobre a iluminação


E. M. de Melo e Castro, in Sim... Sim!

A Noiva do Vento - Oskar Kokoschka

07/03/2012

A PREGUIÇA

A alma adora nadar.
Para nadar deitamo-nos de barriga. A alma desencaixa-se, e lá vai. Lá vai a nadar. (Se a sua alma partir quando você estiver de pé, ou sentado, ou de joelhos dobrados, ou de cotovelos dobrados, em cada posição diferente do corpo a alma partirá num andamento e numa forma diferentes; explicarei isso mais tarde.)
Fala-se muita vez em voar. Não é isso. O que é preciso é nadar. E a alma nada como as serpentes e as enguias, nunca de outra forma.
Uma data de pessoas têm, assim, uma alma que adora nadar. Chamam-lhes vulgarmente preguiçosas. Quando a alma sai do corpo pela barriga, para nadar, opera-se uma tal libertação de não sei quê, um abandono, um prazer, uma descontracção tão íntima.
A alma vai nadar para o vão da escada, ou para a rua consoante a timidez ou a audácia do homem, pois mantém sempre um fio entre ele e ela, e se esse fio se rompesse (às vezes é muito frágil, mas seria precisa uma força terrível para romper o fio), seria um desastre para ambos (para ela e para ele).
Quando, portanto, se encontra ocupada a nadar ao longe, por esse simples fio que liga o homem à alma escoam-se volumes e volumes duma espécie de matéria espiritual, uma espécie de lama, assim como o mercúrio, ou como um gás — prazer sem fim.
É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É por isso também que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois, quem há mais egoísta do que a preguiça?
Ela tem bases que o orgulho não tem.
Mas as pessoas encarniçam-se contra os preguiçosos.
Quando estão deitados, batem-lhes, despejam-lhes água fria na cabeça, e eles devem puxar rapidamente pela alma. Olham-nos então com aquele olhar de ódio, que bem conhecemos, e se observa sobretudo nas crianças.


Henri Michaux, As Minhas Propriedades

14/02/2012

Sophia


(Fotografia de Eduardo Gageiro.)

Um dia branco

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Fundo do mar

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


Sophia de Mello Breyner Andresen

O Rei da Ítaca

A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei da Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado


Sophia de Mello Breyner Andresen

Os troncos das árvores

Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.


Sophia de Mello Breyner Andresen

07/02/2012

Absurdemos a Vida, de leste a oeste.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

01/02/2012

20

De Hipérion para Belarmino
  
Que importância tem todo o saber artificial que há no mundo, que importância tem toda a soberba independência do pensamento do mundo face aos sons espontâneos deste espírito que não tinha consciência do que sabia, do que era?

Quem não prefere as uvas frescas e inteiras, tal como amadureceram naturalmente, a partir da raiz, aos bagos que já foram colhidos secos e que o comerciante comprime numa caixa e envia por esse mundo fora? Que importância tem a sabedoria de um livro perante a sabedoria de um anjo?

Ela parecia dizer sempre tão pouco, no entanto dizia muito.
Uma vez acompanhei-a a casa, já no final do crepúsculo: como sonhos, passavam pelo prado pequenas nuvens húmidas e as estrelas bem-aventuradas espreitavam pelos ramos como génios atentos.
Raramente se lhe ouvia sair da boca «que belo!», ainda que o seu piedoso coração escutasse inteiramente o murmúrio das folhas e o sussurrar das águas.

Desta vez, porém, disse-mo - que belo!
Decerto, é por amor a nós! disse eu, mais ou menos como as crianças falam: nem a brincar, nem a sério.
Posso imaginar o que tu dizes, replicou ela; prefiro imaginar o mundo como uma vida doméstica, em que cada um, sem precisar de pensar, se dirige ao outro, e em que se vive para o agrado e a alegria mútuos, por isso brotar assim do coração.

Alegre crença sublime! exclamei eu.
Ela calou-se por uns momentos.
Também nós somos, portanto, filhos dessa casa, comecei por fim a dizer, somos e seremos.
Sê-lo-emos eternamente, respondeu ela.
Será assim? perguntei.
Confio, continuou ela, a este respeito, a Natureza, tal como nela confio diariamente.

Oh, gostaria de ser a Diotima que isto disse! Mas tu não sabes o que ela disse, meu Belarmino! Não viste nem ouviste.

Tens razão, respondi-lhe; a beleza eterna, a Natureza, não sofre em si nenhuma perda, tal como não aceita nenhum acréscimo. Os seus adornos de amanhã não serão iguais aos de hoje; mas ela não pode prescindir de nós, de nós, do nosso melhor, e de ti ainda menos. Acreditamos que somos eternos, pois a nossa alma sente a beleza da Natureza. Ela é uma obra inacabada, não é o divino, a perfeição, se tu alguma vez lhe faltares. Ela não merece o teu coração se tiver de corar ante as tuas esperanças.


Friedrich Holderlin, Hipérion


25/01/2012

O LIVRO DE THEL

Moto de THEL

A Águia sabe o que está no fosso?
Ou vais perguntar à Toupeira:
A Sabedoria cabe num bastão de prata?
Ou o Amor numa taça dourada?

THEL

I

As filhas de Mne Seraphim guardavam os rebanhos radiosos.
Todas menos a mais nova; ela, pálida, buscava o ar secreto.
Murchar como o esplendor matinal no seu dia mortal:
Junto ao rio de Adona ouve-se a sua meiga voz:
E o seu doce lamento cai como o orvalho da manhã.

«Oh vida desta nossa Primavera! porque murcha o nenúfar?
Porque morrem os filhos da Primavera? nascidos pra sorrir & fenecer.
Ah! Thel é como um arco-íris e como uma nuvem que se desfaz,
Como um reflexo num espelho, como sombras na água,
Como sonhos infantis, como um sorriso num rosto de criança,
Como o arrulho da pomba, como o dia que passa, como a música no ar;
Ah! possa eu deitar-me docemente, e docemente pousar a cabeça,
E dormir docemente o sono da morte, e ouvir docemente a voz
Daquele que caminha no jardim durante a noite.»

O Lírio do vale, que respirava no meio da erva modesta,
Respondeu à bela donzela e disse: «Eu sou uma erva aquática,
Sou pequenina, e gosto de morar em vales humildes;
Tão frágil, que a borboleta dourada mal me pousa na cabeça.
Mas os céus abençoam-me e ele que tudo vela a sorrir
Caminha pelo vale, e todas as manhãs passa a mão sobre mim
Dizendo, 'rejubila erva humilde, recém-nascida flor do lírio,
Doce menina de silentes vales, e de modestos regatos;
Pois serás coberta de luz, e comerás do maná matinal:
Até o calor do Verão te derreter nas fontes e nas nascentes
Para brotares em vales eternos'; porque há-de Thel queixar-se,
Porque há-de a senhora dos vales de Har suspirar?»

A erva calou-se & sorriu a chorar, depois sentou-se no seu templo de prata.

Thel respondeu: «Ó virgem pequenina do vale tranquilo,
Que acodes aos que não podem implorar, aos mudos, aos fatigados,
O teu fôlego nutre o cordeiro inocente, ele cheira-te as vestes leitosas,
Colhe as tuas flores, enquanto estás sentada a sorrir-lhe na cara,
Limpando-lhe a boca mansinha de todas as máculas contagiosas.
O teu néctar purifica o mel dourado, o teu perfume,
Que espalhas sobre cada folhinha de erva que brota,
Revigora a vaca ordenhada, & sossega o fogoso corcel.
Mas Thel é como a nuvem esbatida que o sol nascente incendeia:
Desvaneço-me do meu trono perlado, e quem encontrará o meu lugar?»

«Rainha dos vales,» respondeu o Lírio, «pergunta à nuvem ténue
E ela há-de dizer-te porque cintila no céu da manhã,
E porque irradia a sua beleza brilhante no ar húmido.
Desce, Ó Nuvem pequenina, & paira diante dos olhos de Thel.»

A Nuvem desceu, e o Lírio inclinou a cabeça modesta:
E foi aos seus muitos afazeres no meio da erva viçosa.


II

«Ó Nuvem pequenina», disse a virgem, «quero que me digas
Porque não te lamentas quando numa hora te desvaneces:
Pois procuramos-te, mas não te encontramos; ah, Thel é como tu.
Eu passo, mas queixo-me, e ninguém ouve a minha voz.»

A Nuvem mostrou a cabeça dourada & a sua forma brilhante emergiu,
Pairando e cintilando no ar diante do rosto de Thel.

«Oh virgem, não sabes que os nossos corcéis bebem das fontes douradas
Onde Luvah renova os cavalos? Olhas para a minha tenra idade,
E temes porque me desvaneço e não mais sou vista.
Nada fica; Oh donzela, eu te digo, que quando morro
É pra redobrada vida, paz, amor, e êxtases sagrados:
Desço invisível, pouso as asas breves sobre as reparadoras flores;
E peço ao orvalho de olhos claros que me leve para a tenda brilhante;
A virgem chorosa ajoelha-se a tremer diante do sol nascido,
Até nos erguermos unidos por laço dourado, e não mais nos separarmos,
E caminharmos juntos, levando alimento às nossas tenras flores.»

«Ah é assim, Ó Nuvem pequenina? Temo não ser como tu,
Pois caminho pelos vales de Har e cheiro as flores perfumadas;
Mas não alimento as florinhas: oiço as aves que chilreiam,
Mas não lhes dou de comer, elas voam em busca de alimento:
Mas Thel já não lhes sente o encanto, pois sabe que murcha;
E todos dirão, 'esta mulher cintilante viveu sem servir para nada,
Ou terá vivido apenas para ser na morte o pasto dos vermes?'»

A Nuvem reclinou-se no seu trono aéreo e respondeu assim:

«Então se és alimento dos vermes, Oh! virgem dos céus,
Mais útil e mais abençoada; pois tudo o que vive,
Não vive sozinho, nem para si mesmo: não temas, e eu chamarei
O verme débil do seu leito humilde, e escutarás a sua voz.
Vem, verme do vale silencioso, à tua rainha pensativa.»

O verme impotente ergueu-se e sentou-se na folha do Lírio,
E a Nuvem brilhante vogou, à procura do companheiro no vale.


III

Então Thel, espantada, deparou com o Verme no leito orvalhado.

«És tu um Verme? Imagem da fraqueza, és apenas um Verme?
Vejo-te como uma criança embrulhado na folha do Lírio:
Ah, não chores, voz pequenina, tu que não falas, mas choras;
É isto um Verme? Vejo-te jazer impotente & nu: a chorar,
E ninguém te responde, ninguém te sorri sorrisos de mãe.»

O Torrão de Argila ouviu o Verme & ergueu a cabeça contristada;
Curcou-se sobre o pranto da criança, e deu-lhe da sua vida
Num carinho de leite, depois fixou em Thel os seus olhos humildes.

«Oh! beleza dos vales de Har, não é para nós que vivemos,
Vês-me como a coisa mais vil, e é isso que sou na verdade;
O meu peito é em si mesmo frio e em si mesmo escuro,
Mas quem ama o que é humilde, unge com o seu óleo a minha cabeça
E beija-me, e prende os laços nupciais em redor do meu peito,
E diz: 'Mãe dos meus filhos, amei-te a ti.
E dei-te uma coroa que ninguém te pode tirar.'
Mas como é, doce donzela, não sei, nem posso saber,
Medito, e não consigo meditar; e todavia vivo e amo.»

A filha da beleza limpou com o véu branco as lágrimas condoídas,
E disse: «Ai de mim! que não sabia isto, e por isso chorava:
Sabia que Deus amaria um Verme, e castigaria o pé malvado
Que de propósito calcasse a sua forma impotente: mas que o acarinhasse
Com leite e óleo, nunca eu soube; e por isso chorava,
E me lamentava no brando ar, por saber que vou murchar,
E deitar-me no teu leito frio, e abandonar o meu destino luminoso.»

«Rainha dos vales», respondeu a maternal Argila, «ouvi os teus ais,
E todos os teus lamentos voar sobre o meu telhado, mas calei-os:
Entrarás tu, Ó Rainha, na minha casa? É-te dada pra que entres,
E pra que regresses; nada temas, entra com os teus pés virginais.»


IV

O porteiro terrífico dos portões eternos levantou a tranca do Norte:
Thel entrou & viu os segredos da terra incógnita;
Ela viu os leitos dos mortos, & onde as raízes fibrosas
Dos corações da terra penetram fundo os torções inquietos:
Uma terra de mágoas e de lágrimas, onde jamais se viu sorriso.
Vagueou na terra das nuvens por vales sombrios, escutando
Dores & lamentos: muitas vezes junto a túmulo orvalhado
Permaneceu em silêncio, a escutar as vozes do chão,
Até chegar à sua própria sepultura, & aí se sentou.
E escutou esta voz penada a exalar do buraco da cova:

«Porque não pode o Ouvido tapar-se à sua própria destruição?
Ou o Olho cintilante ao veneno de um sorriso!
Porque estão as Pálpebras armadas de setas prontas a disparar,
Onde um milhar de guerreiros se encontram emboscados?
Ou um Olho de dons & graças a derramar frutos & moedas de ouro?
Porquê uma Língua gravada com o mel de cada vento?
Porquê um Ouvido, remoinho fogoso para sorver as criações?
Porquê uma Narina aberta a inalar terror & a tremer de medo?
Porquê um freio manso no vigor do rapaz fogoso!
Porquê uma cortina de carne no leito do nosso desejo?»

A Virgem ergueu-se assustada, & soltando um grito
Fugiu sem parar até voltar aos vales de Har.


O Autor & Tipógrafo William Blake, 1789.

22/01/2012

MAR CALHADO E ESTE SANGUE AINDA QUENTE

saí da cidade como de uma rua sem nome
não me lembro de nada, irei ter com o que houver

levo barulho no saco preto às costas
nódoas na roupa interior
e um poema da perna de pau

a alma foi dar horas, já não regressa e virá diferente
resta matéria gorda que a água do chuveiro não levou
um buraco no chão, e má memória

há versos que chegam à cancela como cães sem dono
outros aparecem e fazem chover
também me perco e deliro


João Almeida, Glória e Eternidade

10/01/2012

Story a bordo de um crime

 
Atrás da árvore, à frente do homem, a noite é velozmente incendiada por um fósforo.

*

Ateado à parte de trás da noite, o homem ainda procura arrebatadamente ser a estrela da manhã, mas já só foi a tempo de recordar aquele retrato da primeira comunhão, em que ele apenas queria ser, quando for grande, aviador ou inocente.


António Pocinho, A Ilustre Máquina de Ramires

08/01/2012

\sem cobertura

Por dentro da roupa todos estamos nus
Todos temos casca, polpa e caroço
Por dentro da gente há um grande almoço
Interiormente cortaram-nos a luz.

Dentro da roupa é que nós andamos
Bem ou mal ou assim-assim
É aí que nós nos encontramos
Para o não ou para o sim.

Por dentro da pele ninguém tem relógio
Nem cuecas, nem meias, nem pires de tremoços
Dentro do corpo há um grande imbróglio
O mundo, a dor, os sonhos, os ossos.

Por muito que estejamos fartos
Da cama, da casa, da pele ou da roupa
Sob as vestes todos temos quartos
Para acolher muita gente ou pouca.

Fora da roupa eu não posso
Ir à máquina de lavar
Vou pôr amoniaclar
Por dentro da pele não me coço.


António Pocinho, Os pés frios dentro da cabeça

06/01/2012

Basquiat


   Riding With Death

INCURSOS

1. Já não me contradigo
    contra-sou-me
    contra solo de só
    contra vi lento
    a violência do
    elo a virulência
    do ego a agonia
    do ângulo que nego
    já não me descontrolo
    contrologo-me
    na lança ligação do elo
    à mão
    da polpa à proa
    da laca ao vulcão
    já não me interiorizo
    inteiro o riso
    me fica no pulmão
    desinspirado.
    É só a expiração
    é vento do deserto.


    E. M. de Melo e Castro, Círculos Afins

03/01/2012

O Navio de Espelhos


 
O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ála
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

Mário Cesariny, A Cidade Queimada

29/12/2011

Jodoigne, 30 de Abril de 1975.

_______ as gaivotas voltaram ao meu horizonte pairando sobre a falésia (nesta planície verde do Brabante, onde não há falésias, nem gaivotas); personalizam nos seus voos errantes a minha dispersão, de quem tem, contra o vento presente, mil pensamentos em fuga; não sei para onde fogem estas imagens enlaçadas de gaivotas. Deixam-me supor que é no ponto da dispersão que está o novo lugar. Fixo essas imagens no esquecimento, quando se afogam na areia ou no mar, e exercem sobre mim a última tentativa, vã, de me atrair.


Maria Gabriela Llansol, Finita

19/12/2011

Quando as nuvens correm muito parece que estão a acorrer a um incêndio que se declarou no horizonte.


Ramón Gómez de la Serna

17/12/2011

\ 2º dia

Tanto podia ter sido à saída de um acidente, a atravessar para o outro lado, como de uma curva apertada.

António Pocinho, Os pés frios dentro da cabeça

\ momento

Era uma vez em que parei num momento. Olhei lá para dentro e não avistei o fim. Até que comecei a cair, a cair muito, para dentro do momento, até deixar de sentir que caía. E quanto mais caía, mais deixava de sentir que caía. Aí, comecei a perder as palavras, a camisa, as calças, os sapatos, até ficar sem roupa, até deixar cair o corpo e o copo e sentir um vento interior, um sopro eléctrico e imóvel quando ela num instante me cruzou o corpo com a língua.


António Pocinho, Os pés frios dentro da cabeça

\ telepat

Ocorre muito hoje em dia as pessoas perguntarem umas às outras se têm rede. Claro que tendes rede, ficai tranquilos! Toda a gente terá rede durante os próximos cinco mil anos, o que as impedirá, aliás, de ter muitas outras coisas em seu lugar. Há sempre rede, só que alguns ou são demasiado distraídos ou têm uma velha rede, uma rede antiga comida pelos peixes e pelo mar. Para esses, a telepat inventou um novo sistema que evita estas confusões.
Com o telepat, sistema de tele-comunicação entre humanos baseado na telepatia, não são necessários quaisquer equipamentos ou acessórios para comunicar, que não a própria cabeça, evitando assim o incómodo de transportar um telefone ou uma enxaqueca. Sem ser preciso a instalação de um chip no cérebro, os nossos clientes ficam habilitados a enviar e a receber mensagens com a força mental, bastando para isso concentrarem-se no número da pessoa a quem pretendem ligar ou estarem atentos ao chamamento de outro operador. A grande vantagem deste sistema é a do operador poder enviar todo o tipo de conceitos, como nuvens ou vinho do Porto.
E, senhor cliente, com uma rede mais potente e com sorte, até qualquer abstémio pode enviar e receber licor beirão.


António Pocinho, Os pés frios dentro da cabeça

\ o ministério da acentuação

Amor é uma palavra que se escreve sem acento no e. Não leva e, mas, ainda assim, escreve-se sem acento nessa letra, uma coisa tão absurda como dizer cê de cão ou guê de GNR. Sim, porque há palavras que apesar de não terem uma determinada vogal, têm à mesma o assento nessa vogal que não têm para não se dar o caso de ficarem de pé. A palavra dor, por exemplo, não tem a, mas, apesar de tudo, tem acento nessa letra ausente, e eu não a consigo entender, sem ouvir esse grito na palavra, sem ouvir o a de dor ou de assistir a uma vírgula entre a dor e o prazer. Todavia, a tendência é considerar as vírgulas como coisas que estão ali porque não foram barbeadas.


António Pocinho, Os pés frios dentro da cabeça

\ o ministério das origens

Não estou preocupado quanto às minhas origens. Hei-de ter vindo de qualquer lado: de uma emergência ou outra, de uma criança ou mesmo de um porão.
O que eu não gostava era de ter nascido de uma repartição.


António Pocinho, Os pés frios dentro da cabeça

\ o mistério do equipamento

Gosto de obras. Se pudesse todos os dias tinha obras em casa. É uma forma de ter operários, de nos sentirmos bem com eles, de a gente se abrir às reparações e descansar.
Não gosto é do barulho das obras e por isso preveni os pedreiros que não fizessem barulho com os berbequins durante a construção, mesmo que a sua única obra viesse a ser o silêncio absoluto, o silêncio desprovido de quaisquer impactos ou perfurações.
Sugeri-lhes aliás que não fizessem várias obras, mas que fizessem uma única obra, como aquela que há entre o céu e a terra, um horizonte, uma linha inacessível que dispensasse qualquer inauguração.


António Pocinho, Os pés frios dentro da cabeça

07/12/2011

Ela está de pé nas minhas pálpebras
com os cabelos nos meus entrelaçados.
Ela cabe toda em minhas mãos,
ela tem a cor dos meus olhos
e desaparece na minha sombra
como uma pedra sobre o céu.

Tem sempre os olhos abertos
e não me deixa dormir.
Os sonhos dela à luz do dia
fazem os sóis evaporar-se,
fazem-me rir, chorar e rir,
falar sem ter nada a dizer.

 
Paul Éluard, Mourir de ne pas Mourir

22/11/2011

O Guarda-Rios


É tão difícil guardar um rio
quando ele corre
dentro de nós.
 
Jorge Sousa Braga

22/10/2011

O Anti-Nós

1. Teu ombro belo é belo é como
    deslocado do braço é laca é aço
    desmembrado do torso é nulo é um
    ou número de nada. Só do pescoço
    resta uma válvula cardio-vascular
    sobre o peito do pé. Ainda.
    Como é cedo para
    começar os gémeos distendendo.
    Só o sexo se inclina sob o tempo
    no templo de diana dizimada.
    Ou o tempo abriu as suas patas
    à passagem.


    E.M. de Melo e Castro, Círculos Afins
     
8. amor não sentimento não ternura
não desejo não sexo não amor
amor nada concreto não os olhos
preso nunca no peito não por certo

amor fascínio fuga sal sedento
não ângulo não vértice de vidro
não as ruas desertas pensamento
amor não sentimento não sentido

não amor nunca entrega nunca posse
a fuga porque não nada fragmento
não amor por amor nunca deserto
amor não violento não de vento
não amor desejado mão de invento
amor sempre de não de tempo a tempo

      *

esta tensão concentra-se dispersa
esta atenção alesta-se já presa
esta ilusão liberta-se depressa
certa na mão a solidão tristeza

outra não esta a hora alvo tarde
entra por esta chora alto arde
entreaberto o peito alvo onde
caem os dias tensos tantos tarde

e dispersos memória livres navegar
esperando veloz o esquecido lento
que desprenda do lume o soluço apagar

e não traga destroços de traços no ar
mas consumir o sangue de súbito constante
atento amor esquece luz olhar

      *

35. eu sei dizer    vou já dizer
vou conseguir dizer
seguir o com de ser
con des cen der

e explicar o ar
que expiro inspiro
o ar que miro

que me envolve
e a cor de penas
o voar de ave

no voo de cair
sobre a cidade
a olhar e a rir


E.M. de Melo e Castro, Círculos Afins

03/09/2011

25

Qual é? Onde vai? Que é feito dele? Que é feito do silêncio à volta dele, e daquele par de meias que era os seus pensamentos mais castos, aquele par de meias de seda? Que fez ele das suas longas manchas, dos seus olhos de petróleo louco, dos seus rumores de encruzilhada humana, que se passou entre os seus triângulos e os seus círculos? Os círculos desperdiçavam o ruído que lhes chegava aos ouvidos, os triângulos eram os estribos que ele punha para ir aonde não vão os sábios, quando vêm dizer que é tempo de dormir, quando um mensageiro de sombra branca vem dizer que é tempo de dormir. Que vento o impele, a ele que a vela da sua língua ilumina pelas escadas da ocasião? E os aros para aparar os pingos de cera dos seus olhos, de que estilo os vedes, na feira de ferro-velho do mundo? As suas deferências para convosco, que fizestes delas, quando ele vos desejava boa cave e o sol talhava as chaminés de tijolos cor-de-rosa que eram a sua carne, que deitavam fumo da música da sua carne? As suas tomadas de corrente convosco do lado do canal do Jamor não serão de molde a afastar o carrinho de gelados e de pinhoada que estacionava debaixo do viaduto do metropolitano? E ele, não terá ele repelido o entendimento? Não seguiu ele o caminho que se perde nas caves da ideia, não fazia ele parte do gluglu da garrafa da morte? Este homem de censuras eternas e com frio de lobo, que queria ele que fizéssemos da sua amante, quando a abandonava ao báculo do Verão? Nessas tardes de pedra de lua em que ele remexia numa mesa de vento um copo meio vazio, que escutava ele sobre o gume do ar, como o Indiano? Eu não sou mais forte do que ele, não tenho botões no casaco, não conheço a ordem, não serei o primeiro a entrar na cidade de ondas de madeira. Mas dêem-me um sangue de esquilo branco se minto, e que as nuvens se assemelhem na minha mão quando descasco uma maçã: essas roupas brancas formam um candeeiro, estas palavras que secam no prado formam um candeeiro, que eu não deixarei morrer por falta do vidro dos meus braços erguido para o céu.


André Breton, Manifestos do Surrealismo

Jean-Michel Basquiat


"Não ouço o que os críticos de arte dizem. Não conheço ninguém que precise de um crítico para saber o que é arte."

23/08/2011

7.

Descarta-te Descartes que não percebes nada
do assunto
a vida não é uma leitura permanente e acerrada
dos jornais
          ou um brusco tesão num corredor frio
da Suécia glacial

MAS UMA CONSTANTE TURGIDEZ
FORA DO PRESERVATIVO DOS DIAS

UMA PROFUNDA HILARIEDADE
LÁ ONDE OS NABOS ARTISTAS
E OS ALPINISTAS PORTUGUESES
QUEREM SEPULTAR A DOR MAIS REAL

QUANTO À POESIA, UMA CERTA
DESENVOLTURA NA PROSA

               cogito:

ou serão os meus sapatos que precisam
de meias solas?
é a mijona da gabardina que clama pela lavandaria
a seco
          nódoas dum jantar chez Ben Arfa Moussa
molho dum cuscus com carne fresca de estudanta
antes um chá bem quente e um beijo de enamorada
nunca nenhuma me disse na altura
pior são as recordações
ou o rebentar da maré-cheia das couves-flores
cozidas batendo no peito
          peido de Toulouse
e um tijolo frio no lugar do coração...
          mas já o espectáculo começa
Dança do ventre (tous le samedis)
               oui
           ao umbigo de leila
           outrora travado
          o meu pingava como um carro velho
               o óleo


               ...


num laranjal de Msaken vi uma menina nua
que dançava num círculo de patos ponderados
os seus dentes riam tão vermelhos
que parecia que tinha mordido uma romã
mas era o pai que ela tinha matado


               ...


volta a pólvora das tuas unhas
a arranhar a noite dos desperdícios
                e
            o teu umbigo
a nivelar as conversas inúteis
talvez seja preciso responder pelos presentes
o corpo que mais desanima as pessoas
            é aquele
que no meio da beleza se peida involuntariamente
Descartes à princesa Elisabeth da Haia:
          «une béatitude qui dépend entièrement
de notre libre arbitre»
            quanto a mim
            EU GOSTO
exulta o fumador de escarros universais
                e
d'olhos fechados atravessa Mehedi
enquanto eu páro na Mealhada

(...)

Manuel da Silva Ramos, O Tanatoperador

04/08/2011

PLANO PARA SALVAR VENEZA

I

Sentei-me numa esplanada nas margens do Grande
Canal e pedi uma coca cola... É terrível chegar ao fim
do século dos refrigerantes com esta infinita sensação
de sede.

O século vinte é um vasto deserto de poços de petróleo.
Perfurei o solo da minha terra mas o que me saiu foi
um jacto de poemas.

Prospecções recentemente efectuadas revelaram que sob
as areias movediças de Veneza se encontra um dos maiores
lençóis petrolíferos da Europa.


Esta noite tive um pesadelo. Nas minhas veias não era
sangue que corria era petróleo. E acabara eu de desco-
brir um poço de sangue.

Eu não estive em Awshwitz nem em Babi Yar nem em
Mai Lai. Estive sempre aqui na cama.

& a visão da primeira bomba no céu de Hiroshima fez-me
crescer momentaneamente a água na boca, assim como
a milhares de apreciadores de cogumelos.


Einstein foi uma espécie de pirilampo, uma das raras
Pessoas a possuir luz própria num século onde a maio-
ria tacteava no escuro.

24 july 1969 5 am. Neil Armstrong punha o primeiro
pé na lua. Eu dormia profundamente. E o meu sono
tornou-se nesse momento setenta quilos mais pesado.

Desde que os americanos descobriram que as estrelas
tinham pulgas que não me deixa esta comichão sideral.


O meu século não chegou a andar de gatas. Com oito
anos já se arrastava pelas minas de carvão, pouco tempo
depois combatia nas trincheiras. E as únicas lágrimas
que lhe vi chorar foram as dos gases lacrimogéneos.

Picasso morreu antes que pudesse levar a cabo o seu
sonho, um único fresco que ocupasse não a abóbada da
Capela Sistina mas a abóbada celeste.

Fernando Pessoa morrera muitos anos antes numa clí-
nica lisboeta completamente ignorado, depois de ter
colocado um padrão com a cruz das quinas num dos
areais de areia mais fina do universo.

Talvez o meu século seja uma comédia banal, embora
filmada por homens de talento, onde algumas estrelas
se passeiam com tanto àvontade como se fosse na Via
Láctea e de que a generalidade dos participantes desco-
nhece o argumento.


II

Todos os anos o Adriático cresce alguns milímetros so-
bre Veneza, o século vinte ameaçado pelas águas.

O que é que se pode esperar de um século que foi cons-
truído sobre estacas?

A melhor maneira de conhecer o meu século é de gôndola.

Cada vez mais se apodera de mim a convicção de que
a tua salvação passa pela salvação de Veneza (se é que
não são uma e a mesma coisa).


A não ser que se tomem as devidas providências, dentro
em breve será celebrada na catedral de S. Marcos a
primeira missa submarina para cardumes de peixes
boquiabertos.

Antes disso porém o leão alado baterá as asas e regressará
de novo a Tiro.

Calma! Não há razão para entrarem em pânico. Veneza
não será destruída pelas águas mas sim pelo fogo.

Eu tenho um plano concreto para salvar Veneza. O que
me parece é que ninguém está disposto a colaborar
comigo. Estou a ser alvo de um complot e isto não é
paranóia minha. Ainda ontem os seres vermelhos e
azuis que vivem no sótão me confirmaram o facto.


Eu sou o condottiere Bartolomeo Calleoni. Hoje apeei-me
do meu cavalo e passei anonimamente pela minha Sere-
níssima República.

Quando é que a Ponte del Paradiso será de novo aberta
ao tráfego?

Aproximam-se épocas de grande religiosidade. Para
me preparar vou cultivando religiosamente a cera nos
ouvidos.

Prepara-se um século barbudo e de olhos claros.
Na altura da fuga vestia umas calças de bombasina
lilás, um blusão negro e um lenço branco ao pescoço.
Fugiu da História porque a História era demasiado
pequena para ele.


Testemunhas oculares reconheceram-no quando tomava
um vaporetto perto de Santa Maria della Salutte

Hoje descobri que era uma reincarnação de um doge.
Voltei a Veneza e ainda não desisti de recuperar o meu
palácio nas margens do grande canal a uma colónia de
ratos.

Eu sou a má consciência do meu século. Tenho a cabeça
cheia de ratos e não consigo ver-me livre deles. Nenhum
raticida (o trigo roxo inclusive) se revelou ainda eficaz.

Todas as pessoas deixam uma marca indelével no
século por onde passam, uma pegada na areia ou o
nome escrito em letras de oiro no pedestal de estátuas.
A única marca que quero deixar é uma pequena mor-
dedura atrás da orelha.

Sentei-me numa esplanada nas margens do Grande
Canal... A meus pés corria agora um extenso caudal de
coca cola.


Jorge Sousa Braga

21/07/2011

O ASTRÓNOMO

O teu olhar é um insecto curioso
que ficou preso nas teias do Espaço
Foi o modo que encontrou de ser livre
um pano húmido esfregado em vidro baço

Que o teu sonho até vive bem, enamorado
numa grande moradia com jardins de raros prazeres
mas não há nada, nada como o Espaço

Nessa moradia há telescópios de todos os tamanhos
espalhados pelo esplendor do terraço

Mas foi na cave que engenhaste a solução
para poderes ver pessoalmente os Pilares da Criação

Li no bloco que deixaste:
«A única maneira de poder eu vê-Los ainda
é fugir, fugir da Nebulosa da Águia
correr no sentido oposto mais depressa do que a luz
e mais longe do que muito, muito longe
hei-de deitar-me a contemplá-Los
à sombra de uma nogueira constelada
e descansar enfim esta cabeça generosa
no regaço macio de uma fada»


Gonçalo Fernandes

15/07/2011




Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Mário Cesariny, Nobilíssima Visão

---


É importante foder( ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.

O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d´ir urinar.

Isso eu o quis dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
«O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é»
Verso que, como sempre, terá ficado por perceber( por mim até).
.............................................................................
Também aquela do «outrora-agora» e do «ah poder ser tu sendo
eu» foi um bom trabalho
Para continuar tudo co´a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.


Mário Cesariny, Uma Grande Razão: Os Poemas Maiores

10/07/2011

Hoje, que a cabeça pesa, encontro mil razões para me sentir mais leve. Não sei se ando ou se flutuo. O sono é uma janela de vidro fosco onde o meu reflexo se transfigura. Caminham nos olhos alegres pinturas rupestres em tons de vermelho, pequenas figuras que se esfumam no ar do deslumbramento. E eis que tudo se move ao redor do meu umbigo. A minha infância - pintada muito antes de mim - vem agora beijar-me os cabelos.

Crianças embriagadas de frutos escorrem pelos meus dedos. 

30/06/2011

O sorriso branco

Há um sorriso que raramente encontro na vida, mas quando o encontro sei logo o que ele significa, e cerro os lábios como a impedir-me de falar, para não dizer o que vejo. (...) 

Como poderei eu dizer em que consiste esse sorriso? O que sorri assim sorri em branco, num branco de absoluta palidez, e os olhos, sejam eles negros, azuis ou cor de tabaco, entram nesse sorriso como olhos brancos, olhos que tivessem duas cataratas e duas nuvens, como se a vista estivesse turvada por água com aguardente: uns olhos de estátua.

As rugas desse sorriso não são rugas de velho, são rugas de jovem a quem os estudantes de medicina, com as pinças, põem a sorrir na sala de dissecção.

Esse sorriso claríssimo cuja viagem está marcada para o mês que vem, o doente vai-o partilhando com quem passa, com os móveis, com tudo. É o seu sorriso de despedida, o sorriso com que todos querem ficar bem.

Não se pode confundir esse sorriso com o da convalescença, com o do tísico, com o do doente bondoso; só se pode dizer que esse sorriso é o do luar em ruínas sobre os cemitérios. (...)


Rámon Gómez de la Serna, O Médico Inverosímil


20/06/2011

Greguerías


O abraço é um colar, mas sem fecho.

                                                                           * 

As costelas do esqueleto são como uma gaiola partida de onde fugiu o pássaro.

                                                                          * 

No rio passam, afogados, todos os espelhos do passado.

                                                                         * 

A nossa verdadeira e definitiva propriedade são os ossos.

                                                                        * 

O pintor com a paleta na mão parece um pássaro com uma asa só.

                                                                        * 

O gato rubrica todos os seus pensamentos com o rabo.

                                                                         * 

A noite está entre pestanas azuis.

                                                                           * 

Há um momento em que a luz eléctrica oscila nas nossas lâmpadas como se a fábrica se tivesse enganado e nos tivesse mandado luz de cinema.

                                                                          * 

A noite que acaba de passar vai para o mesmo local onde está a noite mais antiga do mundo.



Ramón Gómez de la Serna


07/06/2011

As imagens

As imagens significam tudo a princípio. São sólidas. Espaçosas.
Mas os sonhos coagulam, fazem-se forma e desencanto.
Já o céu não há imagem que o fixe. A nuvem vista do
Avião: um vapor que nos tira a vista, o grou, um pássaro, mais
nada
Até o comunismo, a imagem final, sempre refrescada
Porque lavada com sangue tantas vezes, o dia-a-dia
Paga-lhe um salário modesto, sem brilho, cego de suor,
Escombros os grandes poemas, como corpos muito tempo
amados e
Postos de lado agora, no caminho da espécie exigente e finita
Nas entrelinhas lamentos
sobre ossos feliz o carregador de pedra
Porque o belo significa o fim provável dos terrores.


Heiner Müller

01/05/2011

Uma data em cada mão; Livro de Horas I

"É estranho. Levanto-me com um desejo louco de manipulação, de tocar em toda a matéria que pode alimentar, cobrir, acolher o corpo. Estou no interior da trama dos sentidos, das essências odoríferas. Tenho a visão das séries de frasquinhos que aliviam, que curam; as diferentes cores projectadas pelas plantas sobrepõem-se numa mesma imagem delicada. Nunca, parece-me, experimentei uma tal emoção, tão intensa, e a palavra alquimia regressa em mil fragmentos e em todas as formas de representação.
Procurou por todo o lado. E , de repente, ao lado da mãe transfigurada, ela encontrou o seu corpo, no mesmo precioso momento de morrer e de nascer. Pegou em toda a série de frasquinhos que possuía; e, com toda a beleza do seu corpo que se desvanecia, encheu de odores, de essências, mulheres de inteligência insuspeita.
Escrevia completamente nua, o ar fresco sobre si, via o futuro sair de si própria e a chama do tempo. Estava contente por já não viver com os homens, mas com os seres.

Ler, reter, situar, reflectir ao nível dos livros: em toda a minha vida já fiz mil programas. Começados e abandonados. Com que assimilei, à minha maneira. Mas agora parece-me que, mais importante do que estudar, descobrir seja o que for através da leitura, é seguir a revelação das mãos que manipulam, agindo na matéria.
Eu sou também matéria."


Maria Gabriela Llansol

23/04/2011


22/04/2011

a melancolia é um fardo difícil, sabes, quando se tem um mar inteiro à frente e parece que andamos à deriva na cegueira. eu fumo um cigarro como uma bomba que o coração explode. espanta-me que se nos espalhem as cinzas depois de mortos, que nos deixem ficar por aí a servir de alimento e pó. que as flores atravessem tantos campos destroçados para se nos murcharem aos pés. e os nossos olhos, ficariam abertos com a loucura? a música começa a tocar-nos de dentro, nos acordes da ternura. ouvimos atentamente o cântico dócil para que descansem em paz, os vivos. mas hoje a garganta inflamou e deu-me para ficar de cama com febre e sonhos revirados. a alma acordou cansada para tempestades. e não sei porque digo estas coisas em ziguezague. esta reviravolta da mente. durmo ainda? talvez seja apenas a forma como caio lá de cima, às vezes. é o medo, sabes. não sei se o corpo caberá no céu, assim, de membros espalhados a dar para o inferno. 



21/04/2011

crisálida

dissolver o cansaço na aspirina o açúcar a angústia
a lembrança no sono o tropeço os falhanços, ligar
com cimento, construir

chorar de vez em quando às escuras para a febre descer

polir palavras com escova colocá-las com pinça
no interior, derramá-las num jarro sem vinho sobre o papel,
deixar secar, recortar, recompor, calar gritos, escrever

sonhar os poemas que não se escreve, escrever os poemas que não.
podar as plantas nos filhos, mostrar os frutos, o caroço,
o saco do lixo, a hora de ponta, suor. depois lavar. levar
o peito à rua, receber os outros, perdê-los, trocá-los,
devolver este par de mãos àquele mar, afogar em esforço
a carótida torcida do tempo, parar sempre noutra esquina,
fugir à vertigem com o prazer das alturas, perder,

permanecer sentado até à dor nos ossos, cronometrar paciências,
aprender na lentidão a única saída,
rápida

e envelhecer.
acreditar?


Manuel Cintra


19/04/2011

Tinha Paixão?

(...)

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio, na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes

(...)

Herberto Helder


17/04/2011

 o tempo percorre a espinha dorsal, a espinal medula
o céu está vermelho como o inferno
olha comigo como vamos juntos a lado nenhum
se eu fizesse sentido isto quereria dizer alguma coisa
escapar-me-á a entrelinha, o sobressalto
a esquina dos teus olhos virei-a há um segundo
e eu continuo a querer coisas que se apagam como fósforos
nenhum olhar me trará a tua luz.



24.06.2010